A professora Edmar Sônia Vieira, de 48 anos, que recebeu uma esponja de aço de um aluno, disse que viveu um choque emocional ao se questionar se teria ou não sido vítima de racismo. O episódio ocorreu no último dia 8, no Centro de Ensino Médio 9, em Ceilândia.
“Eu tive quase um choque emocional. Será que eu sofri isso [racismo]? Comecei [com] indagações. Minha irmã, que já sofreu racismo, falou que era um absurdo e eu disse ‘mas eu não passei por isso'”, declarou Edmar.
O aluno do ensino médio entregou o “presente” para a professora, dizendo ser em homenagem ao Dia da Mulher. A cena foi gravada pelos colegas do estudante. A Polícia Civil investiga o caso.
“Comecei a reter de fato o que havia acontecido, pela repercussão e pelas ações das meninas que usam o cabelo afrodescendente, que foram as que mais me procuraram”, disse Edmar.
Nas imagens, é possível ver quando o aluno entregou o pacote. A professora ainda exclama: “Gente, recebi um presente!”. Ao abrir o pacote, ela fica constrangida.
Uma aluna diz para a educadora não aceitar o presente, mas a professora diz “tudo o que vai volta” e agradece ao aluno que entregou a esponja de aço enquanto alguns estudantes dão gargalhadas.
Reações
No momento da entrega, a professora conta que “a maior preocupação foi acalmar os ânimos”. Segundo ela, alguns estudantes, principalmente as meninas, começaram a reagir à situação. “Vi que as meninas estavam começando a se exaltar”, contou.
Após o episódio, Edmar conta que recebeu pedidos de desculpas e outros presentes de alunos, como chocolates. “Todos queriam me abraçar, então a dor não era mais minha, a dor é do outro. O outro foi atingido”, diz a professora.
“No mundo imaginário não vai dar em nada, mas essa brincadeira se torna um fato real e pesado. Tenhamos mais respeito uns com os outros”, concluiu Edmar.
A escola afirmou que não irá punir o aluno, mas que as ações educativas serão reforçadas. “É deprimente, lamentável. Não podemos nem chamar isso de brincadeira”, disse o diretor da escola, José Gadelha Loureiro.
Além disso, a Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF) vai fazer uma palestra na unidade de ensino, assim como em outras escolas da capital.
Investigação policial
O delegado Flávio Messina, da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA) de Taguatinga, informou que abriu uma investigação mesmo sem a ação da secretaria ou da professora. Segundo ele, o diretor da escola já foi ouvido e, nesta quarta-feira, a Polícia Civil irá voltar na escola para ouvir a vítima e o aluno.
A secretária de Educação do DF, Hélvia Paranaguá, afirmou que a decisão sobre o boletim de ocorrência é da Gerência Regional de Ensino, que ainda precisa ouvir a professora de português. Ela não havia reportado o caso à direção da escola até a última atualização desta reportagem.
Para a secretária, cabe uma dupla interpretação do vídeo e, por isso, é preciso ouvir os dois lados antes de fazer a ocorrência policial.
“Quando eu vi que o presente era pelo dia da mulher, a minha primeira associação é que ele [o aluno] queria dizer que ela não deveria estar dando aula, e sim em casa lavando panela. Mas depois dos comentários dos alunos, pensei que poderia ser racismo pelo fato do cabelo dela”, comentou.